Rodrigo Silveira




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Só Feijão: o avant-rapper Beans lança "Only"

"Master of ceremony/alone but never lonely". É assim que, depois de quase dez minutos de instrumental, a voz do rapper Beans se apresenta em seu novo disco, "Only", lançado no final do ano passado nos EUA e inédito no Brasil. Alguém pode me dizer se conhece algum MC que permanece - que consegue permanecer - tanto tempo sem rimar? Esse é o Beans que a gente conhece: um sujeito nada óbvio.
Ok, ok, a voz se mostra um pouco antes, mas não rimando. E o homem, quando rima, rima muito e não apenas isso. Beans, o mais notável integrante do Antipop Consortium, também comanda as batidas, os samples e, no caso deste disco, o trio completado pelo baixista William Parker e pelo baterista Hamid Drake.

Não que os avant-jazzers acima citados precisem de comando, afinal são bichos criados soltos nas jam sessions novaiorquinas de jazz de vanguarda, mas a personalidade do rapper é forte o suficiente para ser reconhecida por seus admiradores. E ele não decepciona.

Há algum tempo a combinação de jazz + hip hop deixou de ser apenas uma emulação do jazz dos 50/60 com "rimas cantadas por cima". E Beans, junto ao APC, é um dos responsáveis por esta evolução. O Antipop já havia lançado um disco, também da coleção "blue series" - a mesma de "Only", em parceria com o pianista Matthew Shipp, em 2002. Shipp também dividiu improvisos com Parker e Drake, todos da mesma cena musical.

"Only" é despojado, tem uma sonoridade árida e é mantido por extensas sessões instrumentais. O atrito entre os timbres eletrônicos de Beans e a condução de Parker e Drake cria um clima seco, acumulando-se até se tornar um pequeno e lento redemoinho. Tudo isso para preparar as entradas da voz de Beans. Sem canastrices, bem entendido.

E lá pelas tantas vem ele, 'alone, but never lonely' ('sozinho, mas nunca solitário') - bordão que repete ao longo do CD - , para despejar o seu falatório totalmente responsa. Sempre provocativo, dardeja linhas como "MCs/nem mesmo me fazem rir". Ele incita os seus pares do hip hop, meio onde parece estar invariavelmente sozinho, já que é incondicionalmene ímpar, mas com obras onde, com certeza, não está desacompanhado.

Pois a companhia da cozinha de Parker e Drake com o rapper é perfeitamente integrada. Eles não estão ali para fazer uma cama para as rimas, servindo de base ao MC. A combinação do trio tem a força de uma criação coletiva.

Talvez, para os ouvidos acostumados a outros trabalhos de William Parker e Hamid Drake, o disco não soe tão rico. Mas Beans, com "Only", mostra que ainda está na linha - torta - de frente que combate a linearidade do hip hop atual.