Rodrigo Silveira




the eternals_heavy international

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The Eternals: pesado, agressivo e internacional

O vocalista do trio de Chicago The Eternals, Damon Locks, gosta de dizer em entrevistas que é difícil, hoje em dia, não ter uma postura política. Ele prefere manter esta postura fazendo música. Sendo assim - e somado ao fato de grande parte do terceiro álbum de estúdio do grupo ter sido gravado no apartamento dos integrantes - a política aqui é de independência e diversidade, sem mesquinharias.
Se a batida do disco anterior era muito original, aqui a mistura é prá lá de bizarra. Deixo claro que pretendo manter a ironia que os autores propuseram em ambos os títulos, "The Beat Is Too Original" e "The Mix Is So Bizarre", partes integrantes, respectivamente, dos álbuns "Rawar Style" e "Heavy International", o último lançado no início de fevereiro deste ano.

E a mistura é bizarra, mesmo, aos ouvidos acostumados ao reggae que deve soar como reggae ou ao indie rock que deve soar como indie tristinho. Os Eternals mostram que não é preciso haver delimitação territorial entre gêneros musicais. Ou melhor, os gêneros podem se misturar, sem que esta fusão pareça... bizarra.

Voltemos: se no disco anterior eles inventaram o "estilo Rawar", neste eles o aprimoraram. Há balanço e suíngue, mas há também sujeira, peso e barulho - o limpinho The New York Times classificou-os como hardcore. Acertou no atacado, mas errou no varejo: o grupo vem da escola punk do 'faça por si', a música tem energia e é agressiva, mas é ritmicamente muito mais rica e facetada que o 'cerne duro'. E se o ritmo é rico e multifacetado é porque eles misturam mesmo.

E o que seria o tal "estilo Rawar"? em entrevista a André Maleronka, publicada no blog Trânsito (http://transito.zip.net/), eles explicam que Rawar "significa fazer o que você quiser sem pensar no que os outros estão pensando a respeito". Ok... mas, na mesma entrevista, eles dão outras pistas: Locks, que junto ao baixista Wayne Montana mantinha a banda punk Trenchmouth nos anos 90, disse que chegou ao reggae via punk rock (algo muito natural, visto que os punkers londrinos só ouviam sons da jamaica, nos anos 70); afirmou que na casa onde vivia 90% do som saído dos falantes eram ou reggae ou dancehall; à época da entrevista, em seu case haviam discos da série Ethiopiques, M.I.A., Konono, Madvillain e uma coletânea de grindcore...

Vou tentar ser claro: imagine se o Gang of Four tivesse feito uma escala no Caribe antes de gravar os seus discos. Os Eternals, por serem sujos e suingados, têm um som cru e temperado... algo assim como um bife tartar. Mas quem me dera que a definição do disco fosse simples como esta alegoria gastronômica. Em realidade, qualquer definição do som deste disco é tão complicada quanto a digestão desta iguaria. E isso, sob meu humilde entedimento, faz dos Eternals uma banda como há muito não víamos surgir por aí.

A maneira como descrevo acima faz parecer que o estilo dos caras é bastante físico. E não deixa de ser verdade. Mas ser apenas vigoroso não é político o suficiente e eles são, também, muito racionais em suas composições, ao estilo pós-punk dos anos 80 - sem serem demasiadamente cabeçudos. Locks, na mesma entrevista do site Trânsito, conta que o método de composição do grupo começa no improviso, mas é arranjado e lapidado ao longo dos ensaios, onde eles escolhem os timbres e batidas que julgam se encaixar em cada uma das canções.

"Heavy International" é um grande painel de texturas sonoras. Sem dúvida, é o grande disco dos Eternals lançado até agora. Desde a primeira e empolgante faixa "The Mix Is So Bizarre" - que vai te fazer bater com a cabeça na parede - até a última M.O.A.B. - um dub lisérgico e derretido -, é um ato político escutar este disco em volume alto. Vai por mim.