Rodrigo Silveira




hightone_zentone + wangtone

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O lado bom da globalização: High Tone e além

Se eu pudesse enxergar este paraíso neoliberal que atende sob a alcunha de globalização como um vinil, eu veria o lado B muito mais interessante que a face A.
Na distante época dos LPs, ao lado B eram relegados as músicas experimentais, conceituais e sem nenhuma potencialidade comercial. Se a globalização fosse um vinil, o coletivo francês High Tone estaria no lado de lá, escondido, enfileirado no lado bom da coisa.

Formado em 97, junto à crescente cena de dub francês da época, a mesma corrente de onde sairam Le Peuple de l'Herbe e Brain Damage Sound System, High Tone é pesadamente influenciado pelas texturas jamaicanas, principalmente pelos sons produzidos por Lee Scratch Perry (o indiscutível patrono do gênero). Mas não só: o alcance do coletivo de nu-dub francês atinge a ambient music e o drum'n'bass e vai além, atingindo outros territórios.

Além de sua discografia particular, o High Tone faz um trabalho colaborativo com outros artistas. Dois destes projetos me chamaram a atenção: Wang Tone, de 2005 e Zentone, lançado no ano passado.

Wang Tone foi concebido junto ao músico chinês Wang Lei. Lei é da região de Sichuan (localizada na parte central da China) e estudou música por lá, até se interessar pelas vibrações ocidentais (desde a música eletrônica até a caribenha). Wang Tone tem uma combinação poderosa de timbres da música tradicional sichuanesa com modulações de baixo, que vão percorrendo e pulsando o disco inteiro. Mas a produção não se faz de rogada, adicionando scratches, samples de canções e vozes latinas e outros ecos. O resultado é denso e amplo, se é que eu posso ser claro, escrevendo isso.

Já Zentone foi lançado com os também franceses Zenzile Sound System. O ZSS apareceu na mesma época em que o High Tone, com as mesmas influências, mas muito mais roqueiro. Se Wang Tone é um disco híbrido, cheio de nuances vindas de diferentes partes do globo, Zentone é jamaicano até a lata: ecos, repetições e ondulações assombram as canções do disco. Mas os parisienses não se prendem apenas ao dub e abrem os flancos a outras sonoridades - incluindo aí riffs e distorções guitarreiras que se mesclam com timbres eletrônicos de d'n'b e percussões afro.

High Tone é uma esponja e absorve as sonoridades do mundo, sejam elas produzidas pelos vizinhos de rua ou por sujeitos no outro lado do planeta. Se não for pra isso que serve essa porra de globalização, não posso imaginar para que outro fim teria proveito.