Rodrigo Silveira




kieran hebden + steve reid_the exchange sessions

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Encontro fortuito entre Kieran Hebden e Steve Reid

No ano passado, o selo britânico Domino lançou dois discos, intitulados "Exchange Session - Vol. 1 & 2". O projeto é uma parceria entre o jovem inglês Kieran Hebden e o decano baterista americano de jazz Steve Reid, que aconteceu no estúdio Exchange, situado em Camden, Londres. Talvez não seja exagero dizer que a sessão é o (belo) encontro fortuito entre a música eletrônica e o jazz - ou a máquina de costura e o guarda-chuva - sobre uma mesa de cirurgia.

Hebden - que já tocou no Brasil sob seu conhecido codinome Four Tet - foi um dos expoentes daquilo que se convencionou chamar de IDM, "Intelligent Dance Music". Faz colagens, fatia timbres e ritmos, exorta ruídos que não são necessariamente dançantes, mas suas combinações movem as cabeças e os corpos dos bons sujeitos. Ele faz as vezes da máquina de costura.

Quanto a Steve Reid, segure-se: sua lista de colaborações vai desde Archie Shepp e Miles Davis até James Brown, passando por Horace Silver, Sun Ra e Fela Anikulapo Kuti, entre muitos outros. Concedo uma pausa ao leitor, para que medite a respeito. Retomemos: a este senhor eu designaria a personagem do guarda-chuva.

Pois o resultado desta colaboração é muito mais do que poderia imaginar uma mente surrealista. É quase irreal.

Hebden já havia participado do disco Spirit Walk, que Reid lançou em 2005 com sua banda, inserindo seus característicos rumores, engrossando o caldo jazzístico do Steve Reid Ensemble. Mas a faixa "Drum Story" contava apenas com os dois dentro do estúdio, celebrando o início de uma bonita amizade. Amizade esta consolidada nos dois volumes da histórica sessão no estúdio Exchange.

Seria simples dizer que Reid mantém uma levada ondulante entrecortada pelas intervenções eletrônicas de Hebden, mas não se trata apenas disso. O baterista também intervém nos ruídos do laptop guy, que, por sua vez e muito sabiamente, conduz as canções com loops e outras oscilações rítmicas. O resultado é um amálgama sonoro que transcende qualquer gênero. Quase irreal, percebe?

As sessões foram captadas em tempo real, sem sobreposições, sem edições e sem frescuras. As canções são absolutamente improvisadas. Quando ambos se deram por satisfeitos, pararam e batizaram suas faixas com títulos sugestivos: "Soul Oscillations", "Electricity and Drums Will Change Your Mind" e "We Dream Free".

A boa notícia é que eles não se deram por satisfeitos. "Tongues", o próximo disco de Kieran Hebden e Steve Reid, sai em março. E eu só estou contando isso a vocês para que fiquem atentos. A busca do meu Soulseek rastreia as máquinas 24 horas por dia, atrás de algum incauto que já tenha disponibilizado estes mp3. Por ora, nada encontrei. Tudo bem. Passo o meu tempo tentando decifrar as camadas de som que estes sujeitos criaram em uma sentada só. Em poucos segundos, eles conseguem que eu, de absorto, pule da cadeira com taquicardia.

E já que eu comecei este texto parafraseando os dogmas surrealistas, encerro com este dito de Breton, que me parece perfeitamente oportuno: "A beleza será convulsiva ou não será".